COMIDA
Você tem fome de quê?
Desde criança eu tenho uma relação difícil com comida e nutrição.
Minha compleição física sempre foi de uma pessoa pequena e magra. Sempre estive abaixo dos índices regulatórios como IMC, mas nunca me faltou saúde. Minha mãe me levava a muitos médicos para saber se eu não estava com anemia, subnutrida, com problemas de crescimento, mas os exames sempre mostraram que eu era uma criança saudável. Apesar disso, todas as refeições eram um terror para mim. Eu não tinha apetite nem prazer em comer, mas era forçada em todas as refeições.
Como em muitas casas de famílias de classe média brasileira, a nossa casa tinha mais televisores do que habitantes e claro que na cozinha havia um. Sempre que eu era acusada de estar “enrolando para comer", meus pais desligavam a televisão para eu parar de me distrair da comida. Isso sempre vinha acompanhado de uma energia de “por causa da Mariani estamos sendo privados de comer assistindo à televisão".
Lembro de vezes, mais de uma, de ter sido proibida de sair da mesa até terminar a comida no meu prato. Não sei de fato quanto tempo essa tortura durava, mas para mim pareciam horas. A comida já estava gelada, dura, seca, só umedecida por muitas lágrimas de choro. Até que alguém perdia a paciência, retirava o prato, jogava a comida no lixo e me mandava zarpar.
Além de falta de apetite e falta de prazer em comer, havia alimentos que eu não gostava. Lembro vivamente de dois: shitake e missoshiro. Achava que tinham aparência e textura estranhas, não gostava do gosto e não queria comê-las. Isso nunca impediu de me forçarem a comê-las. Por muitos anos não consegui mais comer nenhum dos dois por conta do trauma, até que na adolescência eu experimentei de novo e gostei de ambos. Gostei muito.
Não culpo meus pais. Provavelmente as atitudes deles vieram de traumas que eles viveram com comida e nutrição. Ambos são filhos de pais imigrantes japoneses, que chegaram ao Brasil para reconstruir suas vidas no pós guerra. Ambos experienciaram a insegurança alimentar. Lembro deles falarem de que quando eram mais jovens, carne era algo que não se podia comer sempre porque era cara. Portanto, a filha deles “desperdiçar” comida era uma das maiores afrontas que eu podia fazer a eles.
Meu pai sempre disse que havia duas coisas que nunca iriam nos faltar: livros e comida. E ele fez jus a isso. Lembro de ter pedido a ele o livro Os Demônios, de Dostoiévski. Era uma edição nova da editora 34, portanto caríssima. Ele reclamou do preço, perguntou se eu ia mesmo ler e acabou comprando o livro. Tenho ele até hoje, belíssimo e sem nunca ter sido lido.
Talvez esse trauma tenha sido coletivo porque todas as festas de nossa família têm um volume absurdo de comidas e doces. Todo mundo leva marmitas graúdas para casa e mesmo assim ainda sobra muita comida. É sempre uma fartura, com seu quilate de excesso, mas absolutamente nada é desperdiçado. Tudo é comido até o fim, nem que seja necessário congelar a comida para ir comendo aos poucos depois. A falta talvez tenha provocado o efeito do excesso.
Em nossa casa a comida era básica e comum a muitas famílias: arroz, feijão, salada (alface e tomate) e uma proteína. Minha abertura a novas comidas veio no início da vida adulta, no contato com a família do meu companheiro. Sempre fazia as refeições na casa deles na época da faculdade porque eu morava muito longe da universidade e ficava lá esperando o trânsito abaixar, quando não aproveitava para dormir por lá mesmo para ir para a faculdade no dia seguinte sem enfrentar horas de trânsito ou de transporte público. Eles me acolheram e me alimentaram extremamente bem e a comida deles era sempre deliciosa. Houve vezes que fiquei constrangida de tanto comer. Quem diria.
Lá descobri alimentos diversos como arroz integral, vários tipos de salada e um universo muito diferente de comidas. Eles prezavam muito pela qualidade da alimentação. Os filhos estudaram em escola construtivista da Zona Oeste de São Paulo, então assuntos como importância da alimentação na saúde tinham chegado lá muito antes de chegar na casa dos meus pais. Foi então que comecei a entender que a alimentação e a nutrição também fazem parte de uma estratificação social.
Já falei anteriormente aqui de alguns outros tipos de educação, como a educação emocional. São inteligências desenvolvidas com o tempo e com somas vultosas de energia. Descobri recentemente a educação alimentar. Já havia passado por nutricionistas antes, mas nunca consegui seguir uma dieta. Morava com a minha mãe e a compra e a preparação dos alimentos não eram minhas responsabilidades. Além disso, minha mãe sempre teve uma alimentação bem hardcore, como jantar feijoada com torresmo às 23h00, comer pastel de feira com garapa todas sextas-feiras, sem esquecer dos churros todas as quintas. Com o tempo, fui descobrindo (e desenvolvendo) algumas questões de saúde como intolerância à lactose, síndrome do intestino irritável, disbiose severa, endometriose. E o tratamento disso tudo passa por ter uma alimentação saudável e praticar atividades físicas.

Aos 30 e poucos vi que meus problemas de saúde estavam se acentuando e a idade passou a cobrar sem dó por todos aqueles anos sendo alimentada por Trakinas e Toddynho. Nesta época, tinha me mudado para meu apartamento que divido com meu companheiro, que é a pessoa mais regrada e com mais disciplina que existe na face da Terra. Em resumo, convivo com o homem mais forte e saudável do Brasil. Daqueles que faz cálculo de calorias ingeridas, pesa os alimentos e compra itens a granel. Não bebe café, não consome bebidas alcoólicas, não fuma e não usa drogas. Faz entre 1h e 2h de atividade física todos os dias.
O lado bom disso é que não posso deixar por menos, então procurei uma nutricionista e entrei num processo de reeducação alimentar xiita. Desvencilhar-se de hábitos e estabelecer novos é muito difícil. Por alguns meses, aumentei brutalmente meu consumo de frutas, legumes e saladas e cortei / reduzi todos tipos de alimentos inflamatórios como açúcares, glúten, laticínios, carnes vermelhas e ultraprocessados. E, o mais difícil de todos: cortei bebidas alcóolicas. Tomei suplementação de todos os tipos, incluindo vitaminas, Glutamina, Omega 3, Curcuma, Probióticos. Emagreci muito, mas estava com a imunidade tinindo e com bom índice de massa magra. Tudo melhorou: minha disposição, meu humor, minha concentração, meu foco, minha pele, minhas unhas, meu cabelo. Com a perda de peso, retornei à nutricionista, que me passou uma dieta hiperproteica que me fez recuperar meu peso, que mantenho até hoje. Estabeleci uma rotina inegociável de pelo menos 1h de musculação 3x por semana. Fiquei viciada em literatura sobre alimentação, nutrição, intestino e cocô - nosso cocô diz muito sobre a gente. Experimentei muitos alimentos novos. Diversifiquei meu paladar. Não foi barato. Não foi fácil. Demandou tempo. Demandou foco. Demandou companhia.
Isso já faz cerca de 2 anos. De lá pra cá, dei uma relaxada, mas toda vez que sinto meu corpo inflamar, volto a fazer dieta. Meu corpo tem uma capacidade absurda de inflamar e não posso descuidar da minha dieta, sobretudo agora que novas doenças inflamatórias têm pipocado por aqui. Passei a gostar de comer e desfrutar dos momentos de refeição, que se tornaram muito gostosos (literalmente e figurativamente). Sigo sendo uma pessoa insuportável de viajar junto porque a cada 2h ou 3h preciso parar para comer algo. As pessoas continuam perdendo paciência comigo por conta de comida e para não incomodar ninguém, sempre ando com algum snack na bolsa. Quando trabalhava presencialmente, era conhecida em todos os trabalhos por ter uma gaveta somente para comida.
Neste momento, gasto de 1h a 1h30 para preparar meu café da manhã. São muitas etapas, muitas coisas a serem ingeridas e tem ainda a limpeza. Quem tem este tempo hoje em dia para gastar com um mero café da manhã?! As pessoas estão tentando sobreviver. Como uma pessoa que trabalha em escala 6x1 consegue cuidar da sua alimentação?! Que trabalhador deste Brasil pode gastar horas na organização, planejamento, compra e preparo de seus alimentos?! Quem pode comer todo dia uma comida cujo preparo não seja desconhecido?! Quem pode preparar seu próprio alimento, considerando suas propriedades nutricionais, todo santo dia?! Quem pode comer para se nutrir e não para não morrer de fome, como um protocolo a ser cumprido?!
Como disputar com alimentos que já vêm prontos?
Sem tempo ou ânimo para cozinhar, trabalhadores são empurrados para um panorama alimentar igualmente adoecedor, mas o único que lhes parece conveniente: os alimentos ultraprocessados. (Mateus Habib no Prato Feito)
Os ultraprocessados se tornaram grandes vilões de um tempo para cá, mas a verdade é que a indústria e o capitalismo sempre dão um jeitinho de sair por cima da carne seca. Hoje em dia há uma avalanche de produtos cujas embalagens enumeram benefícios para saúde, mas se você vai ver a composição deles, descobre que embora não sejam ultraprocessados, ainda são comidas muito processadas, tendo passado por diversos processamentos industriais e adição de aditivos. Diversos produtos que eu consumo entram nesta categoria de processados sem que eu fizesse ideia. Eu os consumia achando que estava arrasando. Produtos que se dizem saudáveis. Descobri isso, e mais um monte de outras coisas, neste excelente texto do Jornal do Veneno:
Há um tempo atrás minha família me mostrou um aplicativo chamado “Desrotulando”, que diz “ajudar você a escolher alimentos com confiança e conquistar uma alimentação saudável - sem precisar de uma horta em casa". A partir do scan do rótulo da embalagem do produto, o aplicativo indica uma nota de 0 a 100 e justifica essa nota a partir da análise dos ingredientes e da tabela nutricional do alimento. Na época eu achei o aplicativo um exagero. Um terrorismo alimentar que bitolados em alimentação usam para ficar paranóicos. Eis que há alguns dias eu baixei o aplicativo e fiquei viciada nele. Estou quase pagando pelo plano premium. Descobri que há alimentos muito bons, mas também muito ruins, que eu consumo. E me ajudou na hora de escolher um suquinho para beber após o almoço: comparei dois produtos diferentes e fiquei com o que tinha melhor avaliação nutricional.
Não é possível falar de educação alimentar e alimentação saudável sem considerar recortes socioeconômicos, culturais e psicossociais. Porque essa conta não fecha. Também é importante ter no radar que modas alimentares existem para trazer lucro às empresas, não para proporcionar saúde à população. A Gama fez um compilado de matérias esta semana sobre estarmos obcecados por proteínas em detrimento do consumo de alimentos com outros valores nutricionais também muito importantes. Deixo aqui um link para estas matérias e recomendo o podcast da semana da Gama, que entrevistou a pesquisadora e nutricionista Nadine Marques. Ela traz informações muito interessantes e relevantes como dados que mostram que a alimentação brasileira, em média, já supre as quantidades necessárias de proteína mesmo entre os 20% da população de menor renda, segundo parâmetros da OMS. Ela também explica que desde os anos 1970 a proteína foi alçada ao posto de nutriente nobre também para suprir necessidades da indústria, que tinha um excedente de soro de leite, depois da produção de queijos. E claro que os EUA tiveram sua parte nisso.
Tudo sustentado pela voracidade de um sistema que só pensa em lucrar em cima dos corpos alheios. Com frequência, fruto de relações sutis, mas bastante arraigadas de poder derivadas de uma herança escravocrata que carregamos, e, sabemos bem, se aprofundam com pessoas racializadas. (Mateus Habib no Prato Feito)
Não vou ser hipócrita. Há dias que eu só quero um chocolate venenão. Já cheguei a sonhar com bolacha Bono. Já tive vontade de comer Miojo com salsicha na larica. Já salivei vendo pessoas comendo salgadinho no metrô. Às vezes nos deliciamos com comidas prontas que pedimos pelo IFood. E quando há algum evento social com opção única de salgadinhos e ultraprocessados, eu caio para dentro - apesar de saber que vou ficar com o intestino ruim por pelo menos os próximos 3 ou 5 dias.
Este ano fui medicada com um remédio para TDAH. Um de seus efeitos colaterais foi retirar meu apetite. Parei de usá-lo na hora. Fiquei apavorada com a possibilidade de voltar a detestar os momentos de refeição, de comer forçada sem apetite apenas para manter meu corpo em pé. Comer para sobreviver e não para viver. De não sentir prazer, não sentir o sabor da comida. De voltar a passar horas na frente de um prato de comida tentando vencê-lo por obrigação. Esse é um lugar para o qual não quero retornar nunca mais.





adorei ler. obrigado! e deus abencoe a mim, um coitado que mete um atum gomes da costa semanalmente.