GELADEIRAS
É impressionante a quantidade de atividades gratuitas na cidade de São Paulo. A fotógrafa japonesa Tokuko Ushioda, no Brasil pela primeira vez aos 84 anos, disse que se chocou com isso. Que o Japão deveria importar esta cultura do Brasil e que irá levar esta mensagem aos seus conterrâneos.
Ushioda participa da exposição “A vida que se revela”, em cartaz na Japan House São Paulo até 13 de Abril de 2025 com entrada gratuita. Este bate-papo, em que ela revela seu assombro pelas gratuidades e sua admiração pela cidade de São Paulo (quem diria), está disponível na íntegra no Youtube da fundação e vale muito a pena.
A exposição “A vida se revela", em cartaz no segundo piso da Japan House, é uma parceria inédita no Brasil com a “KYOTOGRAPHIE International Photography Festival”. São 4 séries de fotografias que capturam momentos cotidianos e familiares produzidas por Rinko Kawauchi (1972) e Tokuko Ushioda (1940), artistas japonesas de diferentes gerações, mas com propostas artísticas que conversam entre si.
Ushioda expõe em suas séries os projetos ICE BOX e My Husband. Em ICE BOX, a fotógrafa apresenta uma extensa compilação de fotos de geladeiras que ela documentou ao longo de 22 anos, utilizando sempre um ponto fixo como referência, oferecendo “uma perspectiva única sobre a vida doméstica e a conexão familiar da época". Em My Husband ela compartilha cenas do cotidiano com seu marido e filha numa época que ela descreve como sendo de poucos recursos, mas de dias surpreendentemente pacíficos em suas vidas domésticas.
Já Kawauchi apresenta a série Cui Cui, na qual documentou momentos do ciclo de sua vida em família ao longo de 13 anos; e a série as it is, com registros fotográficos dos 3 primeiros anos de vida de sua filha, além de imagens apresentadas em projeção em vídeo que são ultra fofas.
Todas as 4 séries me impressionaram. Elas dialogam diretamente com um momento da minha vida em que a vida doméstica ganhou uma dimensão enorme dado ao home office e minha mudança para morar sozinha pela primeira vez. O apartamento é meu espaço de permanência, trabalho e conforto. Aguardo ansiosamente pela noite, quando meu companheiro volta para casa e posso ter sua companhia, além de sua deliciosa comida. Revisitando meus álbuns fotográficos no celular, vi que são permeados de fotos aleatórias em casa, de objetos ou do meu companheiro, fotos que eu jamais teria sua autorização para veicular porque ele está sempre invariavelmente nu ou seminu, que é como ele anda em casa e se exercita, mesmo em dias frios.
O projeto ICE BOX, de Tokuko Ushioda, é genial e despretensioso em igual medida. Tudo começou quando Shinzo Shimano, marido de Ushioda, comprou uma geladeira sueca enorme, vendida em meio a outras “sucatas” que foram descartadas na retirada das Forças Aliadas do Japão após a Segunda Guerra Mundial. Inevitavelmente, por seu tamanho e barulho, a geladeira começou a chamar a atenção da fotógrafa, que em meio a registros de sua vida cotidiana, passou a fazer registros de sua própria geladeira e, mais tarde, da geladeira de outras pessoas, conhecidas, familiares ou não.
Na série é possível ver geladeiras de todos os tipos. Grandes, pequenas, com compartimentos ou não. Cheias, menos cheias - admiravelmente nunca vazias ou com poucos itens. Com coisas penduradas na superfície metálica - contas, calendários, desenhos, bilhetes, posteres, imãs. Ou lisas, sem nada tumultuando sua superfície. Geladeiras como parte de um cenário bagunçado ou mais organizado. Usadas como apoio de objetos como panelas, vasos, decorações ou outras utilidades de cozinha. O quanto uma geladeira diz sobre a pessoa / as pessoas e sua vida doméstica?
Lembro que, quando nos mudamos para a casa nova em 30 de Outubro de 2022, nossa geladeira tinha apenas uma garrafa d’água e um pote de manteiga. Quando ia para a casa da minha mãe, ficava assombrada com a quantidade e variedade de comida em sua geladeira. Em contraste com a nossa, parecia que éramos adolescentes universitários. Não tínhamos nada pendurado na superfície metálica do eletrodoméstico e logo comecei a pedir de presente dos amigos que iam conhecer nossa casa imãs de geladeira para pendurarmos de recordação. Outros ímãs de viagens que as pessoas foram e nos trouxeram ou de viagens que fizemos. Um deles se destaca por sua feiura e mau acabamento - uma morceguinha de ponta cabeça, grandes olhos e lacinho rosa que trouxemos do Petar e que nos cativou por sua esquisitice. Sabia que dentre outros ímãs bonitos, ela dificilmente seria levada por alguém para casa, por isso trouxe a esquisitona conosco. Nossa geladeira foi um presente de casa nova da família e até hoje não sei para quê servem alguns botões nela. Frostfree inverter com congelador separado. Refrigeração média, modo compras, freezer médio. Ice express, trava painel, turbo freezer, horti vita, drink express - palavras para mim que não fazem nenhum sentido. Quando aberta após algum tempo, ela começa a apitar e nunca descobrimos como desligar este alarme, sendo necessário fechá-la e abri-la novamente, para desgosto da Izaurinha, diarista que trabalha em casa 1 vez por semana, que sempre solta muxoxos por conta deste alarme que a irrita.
Hoje, pouco mais de 2 anos depois de termos nos mudado para esta casa, nossa geladeira já adquiriu uma personalidade própria e expressa muito de nós, seus “donos" e frequentadores. Meu leite vegetal ao lado do leite integral de meu companheiro. Frutas que não resistem mais ao calor insalubre da cidade, sobretudo as orgânicas, que damos preferência. Ovo, elemento básico e de alto consumo em nossa casa. Verduras como folhas, tomate, cenoura, brócolis - que depois do Cauê descobrir que faz bem para minha endometriose, passou a comprar e me obrigar a comer apesar de eu não gostar de brócolis. Tapioca, geleia sem açúcar, mirtilo e meu pão sem glúten nunca faltam pois comemos todos os dias pela manhã. Uma maionese Hellmann's Supreme que eu comprei de gula por conta da propaganda da marca durante os comerciais das Olimpíadas de 2024. Na porta da geladeira, 2 garrafas de vidro da Voss com água gelada, que geraram uma briga de casal após o Cauê descobrir quanto custa cada uma e saber que eu havia comprado não apenas 1, mas 2. Hoje em dia, ele abre a geladeira e olha para a porta pra ver se eu não comprei uma terceira. Uma garrafa de groselha cheia que provavelmente nunca será tomada em sua totalidade - sequer lembro do contexto que tenha motivado esta compra. Uma garrafa de vinho branco barato para fazer risoto e uma garrafa de vinho rosé que roubei de minha irmã da casa da minha mãe. Uma garrafa de saquê no fim. Maizena e pimenta - essa última inclusive coabita o espaço da geladeira com outras 2 ou 3 variedades dela. As cervejas na prateleira de cima são para as visitas inesperadas e sobretudo para meu suporte emocional - me sinto mais relaxada por saber que ao final do dia posso escolher ou não tomar uma geladinha; embora tente não beber de semana, tem dias que pede. Frutas picadas em potes onde vieram comida italiana via Ifood, uma garrafa de Inka Cola que trouxe do Peru para uma amiga e ela esqueceu em casa, uma garrafa quase vazia de chá que sobrou de uma viagem à praia e ficou conosco, mesmo que tenhamos o hábito de não beber sucos, chás e refrigerantes em casa. Hidrosteril, missô, pasta de pimenta coreana. O congelador quase vazio com algumas carnes, polpa de frutas e pão de queijo congelado. Restos de comidas em potes, um deles de vidro roubado da casa da minha mãe - preciso me lembrar de comprar potes. Iogurte grego que como de pós treino com mirtilo, mamãe e granola.
Passei a conversar com algumas pessoas sobre suas geladeiras e o que elas abrigam e todas têm uma história curiosa. Geladeiras dizem muito sobre as pessoas mas também trazem um recorte socioeconômico e até político por trás. Nenhuma geladeira é igual à outra. Podem ser semelhantes, mas nunca iguais. A geladeira de uma família tende a ter mais coisas do que a geladeira de uma pessoa que vive sozinha. A geladeira de quem tem o privilégio de cozinhar e comer comida fresca tende a ter mais variedade de coisas do que a geladeira de quem pede muita comida pronta. Recursos financeiros também se fazem flagrantes. Geladeiras trazem histórias por dentro e por fora e registrá-las é um tratado histórico, político e socioeconômico de um tempo. Em sua série ICE BOX, Ushioda prestou um serviço historiográfico talvez sem sequer se dar conta.
E sua geladeira, conta qual história?






amiga, um dia fui na sua casa e fiquei olhando sua geladeira qdo fui pegar cerveja. n sei pq mas fiquei curiosa pra ver oq tinha. acontece as vezes, n sempre, teve alguma coisa q me deu vontade de olhar ela
Acho que um detalhe que mais me atiça a curiosidade são essas coisas que não são obviamente de geladeira mas que por algum motivo a gente coloca. No seu caso fiquei pensando "Maizena? Hidroesteril??" - mas ao mesmo tempo na minha casa o palito de dente vai sempre na geladeira. Tradição familiar da minha mãe, que tem nojo pensando que ""bichos"" podem passar por eles. Pra mim, é só o jeito mais fácil de encontrar quando eu preciso de um palito de dente (na dúvida, tá sempre na geladeira).