Plantas
Eu não sei cuidar de plantas.
Assim como cozinhar, acredito que seja uma habilidade que algumas pessoas têm naturalmente. Já consegui matar um cacto. Mas apesar da falta de habilidade, gosto muito de ter plantas em casa. E há duas plantas que cuido com maior dedicação: a árvore do dinheiro (Pachira Aquática) e a árvore da felicidade (Polyscias). Inevitável achar que é presságio de mau agouro quando elas estão xoxas e capengas.
Ganhei a árvore da felicidade de uma amiga querida - diz-se que você deve ganhá-la para atrair sorte, harmonia e prosperidade ao lar. A superstição diz que comprá-la para si mesma não ativa essas boas energias. Um dia, notei que ela estava com folhas amareladas. De um dia para o outro, metade da planta estava tingida de amarelo. Tentei dar mais água nas regas e pesquisei na internet o que significa uma planta ficar com folhas desta cor. Os resultados indicaram que as causas podem ser multifatoriais. Pode ser até mesmo uma reação natural da planta quando algo muda nas condições do ambiente, como temperatura e iluminação. Uma adaptação, uma renovação. Isso faz sentido considerando que nas últimas semanas temos tido quedas de temperatura de um inverno que se aproxima
Não tive coragem de tirar a folhagem amarelada, embora tenham me contado que é importante removê-las para a planta poder usar os recursos para nutrir o que restou saudável ou o que irá florescer no lugar. Tirar a folhagem amarelada significava deixar a planta praticamente nua. E seria meu atestado de fracasso como mãe de plantas.
Acontece que as folhas amareladas decidiram por mim. Um dia elas formaram uma mini relva no chão da sala. Não pude fazer mais nada por elas, então foquei em cuidar das sobreviventes. Dei insumos à terra e fiquei atenta à rega regular. Passados alguns dias, pequenos brotinhos começaram a nascer no lugar das folhas que se foram. E aos poucos elas estão ocupando os vazios que ficaram.
Eu acho isso realmente mágico e bonito. E me traz uma felicidade simples e genuína. As plantas me dão uma lição de sobrevivência e resiliência. Elas precisam de pouco para sobreviver e conseguem prosperar mesmo em contextos adversos. Elas se adaptam e buscam pelo o que lhes faz bem. Se lhes falta luz, os galhos e as folhas vão no sentido de onde há mais deste recurso. Elas nascem mesmo em meio ao asfalto, achando as mínimas brechas para existir. As plantas me trazem esperança.
A página Brain Changes fez um post no Instagram com resultado de pesquisas que demonstram que a esperança pode ter o poder de alterar comportamentos e estruturas neurobiológicas, funcionando como um “poderoso remédio”. O cérebro pode literalmente funcionar de uma forma diferente quando você acredita que as coisas podem melhorar. E isso melhora não apenas a saúde do cérebro, mas também a saúde física do indivíduo que a experimenta. Segundo a página, “quando as pessoas perdem a esperança, a motivação frequentemente entra em colapso. O sistema nervoso passa a operar em modo de sobrevivência. E o futuro pode começar a parecer “bloqueado” ou “sem saída””. A esperança daria um motivo para o corpo e o sistema nervoso continuarem seguindo, com menos sofrimento e maior capacidade de regeneração.
Meu senso de esperança costuma residir nas coisas pequenas. Para notá-las, acredito que uma pedagogia do olhar seja necessária. Em O Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche defende o ensinar a aprender a ver, aprender a pensar e aprender a falar / escrever. Este é um modo de se relacionar com o mundo. É uma qualidade do sensível que permite que reivindiquemos uma sociedade melhor. A contemplação é elemento fundamental da experiência humana. Para a sociedade do desempenho em que vivemos, a contemplação é um problema porque quebra o ritmo da produtividade e promove a emancipação do sujeito. Aprender a contemplar é um ato de resistência que nos torna mais vivos, atados ao presente e à experiência de estar neste mundo.
“Aprender a ver — habituar o olho ao sossego, à paciência, a deixar as coisas se aproximarem; adiar o julgamento, aprender a rodear e cingir o caso individual de todos os lados. Esta é a primeira preparação para a espiritualidade: não reagir de imediato a um estímulo, e sim tomar em mãos os instintos inibidores, excludentes.”
(Friedrich Nietzsche em O Crepúsculo dos Ídolos)
Que os brotos das plantas nasçam e possamos estar livres o suficiente para contemplá-los.



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